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Pezinhos de lã

Pezinhos de lã

Junho 16, 2022

Colette

Quando era miúda, vivia numa pequena aldeia trasmontana.

Naquela altura, anos 80, muitos emigrantes tinham, como os meus pais, vindo de vez de França e,  das ex-colónias, também tinham regressado a Portugal muitos portugueses, com as  suas famílias. Por isso, as vilas e as aldeias do interior estavam cheias de gente, cheias de vida.

Eu teria 12, 13 anos e lembro-me que costumava ler e escrever cartas a um casal de idosos que vivia no fundo do povo. Nem um nem outro conhecia uma letra, de modo que, sempre que os filhos, emigrados em França, lhes escreviam era eu quem lia essas cartas e respondia às mesmas e essa era a única forma daquela família comunicar entre si, pois os idosos não tinham telefone.

De vez em quando, a acompanhar as cartas, vinham fotografias, principalmente dos netos, o que muito alegrava os avós que, cheios de orgulho, repetiam “ Olha o nosso Jonathan, que grande!; “ Olha a nossa Stéphanie, parecidinha com a Lurdes, é mesmo a cara da nossa filha!” “Que lindos meninos!”

Guardo essa memória de infância com muito carinho, pois essa função dava-me uma certa importância, mas também uma grande responsabilidade: eu era a primeira a saber das novidades, boas ou más, e cabia-me a mim a tarefa de as transmitir àquele simpático casal de idosos que, em consideração ao meu “trabalho”, me dava, de vez em quando, algumas guloseimas vindas de França. Criança, ainda, tentava cumprir da melhor forma o meu propósito, escrevendo devagar, de modo a fazer uma caligrafia bonita e redobrando a minha atenção para não dar erros. Era fiel ao que me era ditado pela Ti Maria, no seu conteúdo, mas tentava embelezar as palavras dela, transformando o seu português, rudimentar e simples, em expressões mais trabalhadas, conforme me permitiam os meus conhecimentos, na altura.

Recordo uma casa humilde e antiga, de pequenas dimensões, com uma cozinha de forno de paredes negras, onde vivia o casal e, ao lado, um pequeno anexo, mais recente e com mais e melhores comodidades, reservado aos filhos para quando vinham passar férias, em agosto. Eram assim os pais da minha infância: guardavam sempre o melhor para os seus filhos e netinhos, porque para eles qualquer coisa servia...

Era nesse anexo que a Ti Maria expunha as fotografias dos filhos e netos e também foi aí, em cima de uma cómoda de madeira escura, que vi a fotografia dele. Era um retrato a preto e branco, numa moldura prateada, do filho mais novo. Era um belo rapaz, envergando roupas de tropa e uma arma na mão. Esse filho, que sorria na fotografia, morrera na guerra da Guiné.

Com o tempo, acostumei-me à presença daquele retrato, mas de início fez-me confusão saber que aquele rapaz já não estava vivo, que alguém tão novo e tão bonito pudesse morrer. Sobretudo, chocou-me que tivesse morrido numa guerra que eu desconhecia e da qual ninguém falava, como se não tivesse acontecido ou fosse um assunto proibido. “Ai o meu Zé, que mo tiraram tão cedo! Maldita guerra!”Era o único comentário que ouvia dos lábios daquela mãe, dorida na voz e na alma. Eu, criança, ainda, continuava a escrever a carta, sem saber o que responder...

Mais de 30 anos depois, continuo a pensar no que lhe devia ter dito e não acho respostas. Onde encontrar palavras que confortem uma mãe que perdeu o filho?

Talvez o silêncio, com todo o seu peso, seja a resposta mais adequada a toda a loucura deste mundo, à insanidade das nações que iniciam guerras intermináveis às quais oferecem os seus jovens, o seu futuro, à morte.

Talvez o silêncio fosse, e seja, afinal, a resposta acertada perante toda a injustiça e a maldade humanas, que enchem estantes de retratos a branco e preto...

Fevereiro 28, 2022

Colette

Não vou escrever sobre a guerra na Ucrânia, pois não me sinto capaz.

Falhou-me a voz, as mãos tremem-me e o coração passou a bater descompassado, ao som dos passos que se aproximam de uma qualquer fronteira, porto de abrigo, refúgio, garante de segurança...

Assisto, incrédula, a uma guerra que não era suposto acontecer, agora...  na Europa.

Sofro por ver como, de um dia para o outro, a vida dá uma volta e nos deixa, literalmente, sem chão, sem o nosso chão mãe, chão pai, chão sagrado...

Não imagino, sequer, o que será deixar tudo para trás e fugir com muito pouco, o mínimo, que nem chega a ser o essencial.

De quantas mochilas precisamos para guardar toda uma vida?

Há quem diga que tudo estava previsto e que, na verdade, vivíamos numa ilusão, numa paz podre.

Detesto esta expressão.

Podre serão os corpos dos soldados que, de um lado e do outro, tombam cravejados de balas... (Alguns, miúdos ainda. Crianças...)

Antes uma paz pobre do que a podridão de uma guerra.

Janeiro 27, 2022

Colette

 

Gostava muito que certos políticos fizessem como o gato do outro senhor e se calassem.

Vir para os meios de comunicaçao social opinar sobre ideologia de género, com um discurso embuído de um moralismo perfeitamente inócuo, nada acrescenta de positivo à vida das pessoas que se deparam, diariamente, com grandes dilemas quanto a esta questão.

Que o digam os pais do jovem que ainda ontem se atirou de uma ponte, na cidade onde eu vivo. Tinha 15 anos. Por mais que a família e os seus amigos o amassem, não suportou continuar a viver numa sociedade intolerante, cínica e hipócrita que, amiúde, lhe mostrava que ele não tinha lugar neste mundo, porque neste mundo, só cabe quem é Homem ou Mulher, o resto são aberrações...

Aberração é quem insiste em mergulhar a cabeça na areia. É quem se recusa a ver que cada um é diferente do outro, tendo, no entanto, igual valor e direito a ser feliz, seja qual for a sua condição, tendência ou escolha.

Por isso, pela saúde mental de tantos adolescentes e jovens, que vivem em grande sofrimento com este tipo de comentários e atitudes, é preciso mudar a perspetiva e o discurso, antes que ele faça mais vítimas.

Janeiro 21, 2022

Colette

Dezembro, ainda

Adoro dias de Sol e de frio. Adoro dias como o de hoje em que o céu, azul celeste, convida a sair da toca. Sol de inverno, mal aquece o rosto gelado, que fecha os olhos com tanta luz… Agasalho quente, mãos na algibeira. Frio polar, dizem na televisão. E eu penso logo em ursos brancos, em glaciares e toneladas de neve. Qual frio polar? Frio apenas, frio de dezembro….

Dezembro é para mim o mês das lembranças. Nada a fazer. No canto da sala piscam as luzes do pinheiro, ao lado dorme o Menino numa cabana, duplamente improvisada, pela História e pela minha falta de jeito para os trabalhos manuais. Pendurei, até, uma gambiarra na cortina, para dar um ar mais natalício ao espaço. Não adianta: decididamente o meu estado de espírito não acompanha o calendário.

Diz o calendário que é altura de dar e receber. E hoje recebi dois separadores para livros, desenhados e pintados à mão. Originais e muito bonitos. Obrigada. São duas árvores típicas desta zona, explicaram-me. Muito giras, adoro as cores. Que pena eu ser tão pouco prendada para estas coisas. Mas gosto de árvores e tenho uma coisa com os plátanos, desde a infância. Mas os plátanos não são daqui, apesar de haver muitos em Alijó. Como raio é que vieram parar os Plátanos a Alijó?

Quando eu era miúda, o meu pai costumava ir jogar às cartas todos os domingos. Depois de conseguir deixar o tabaco, a sueca passou a ser o seu único vício. Como um ritual, após o almoço, ia buscar o capacete e descia ao encontro da sua pequena mota, que punha a trabalhar um pouco, para aquecer. Depois, olhava para a varanda, onde eu o observava ansiosa, e sorria. Queres vir, que eu deixo-te na tua madrinha? Eu dava um salto, e, em poucos minutos, estava sentada atrás dele, com um capacete em forma de penico enfiada na cabeça. Castanho, com umas riscas de fita-cola amarela atrás, a fazer de refletor. Somos uma família de improvisadores…

             E os plátanos, afinal?

Nem consigo explicar as sensações que aquele trajeto me proporcionava. Os meus braços eram demasiado pequenos para conseguir abarcar o corpo do meu pai, homem alto e possante, valente na postura e no caráter (Valentim, nome adequado.) Mas eu entrelaçava as mãos, por cima da sua barriga, encostava a cara no meio das suas costas e fechava os olhos, rendidos ao poder do vento.... Chegados à avenida dos plátanos, eu não baixava as armas, mesmo piscando os olhos a uma velocidade dolorosa, com lágrimas a escorrer pela face, eu resistia: e de repente lá estavam os plátanos, árvores brancas, mágicas, gigantes, estendidas pela avenida, dos dois lados da estrada, imponentes e entrelaçadas. Um túnel de ramos que me transportava para outro mundo.  Os plátanos eram fadas, esbeltas e sedutoras?

Quando passávamos a avenida, os meus olhos podiam finalmente encontrar o descanso. Abraçava-me mais ao meu pai e imaginava-o rei de um reino encantado, onde houvesse muitos plátanos, flores, duendes e fadas boas. Não havia, na minha lista de conhecimentos, nenhum homem superior ao meu pai, porque ele era o homem mais bonito e mais forte do mundo ( apesar daquele capacete ridículo que trazia na cabeça). Ele estaria sempre presente e seria o meu protetor e defensor, em todos os momentos…

Dezembro é para mim o mês das lembranças e tenho uma coisa estranha com plátanos…

Janeiro 16, 2022

Colette

Já não chegam os dedos das duas mãos para contar as pessoas, algumas muito chegadas, que o cancro me levou.

Só mulheres, todas com menos de 50 anos, conto cinco.

Uma delas era a minha melhor amiga.

Nunca pensei que, chegados a este tempo, em que tantos avanços se observam em termos de novas tecnologias, invenções e robótica, ter um cancro fosse uma sentença de morte. É assustador e é muito triste.

É também incompreensível esta situação, em certa medida: inventou-se, em tão pouco tempo, uma vacina contra a Covid e não se vêem avanços assim para melhorar os tratamentos contra o cancro, tão invasivos, dolorosos e destruidores, nem tão pouco, a sua cura?

Não percebo.

 

 

Janeiro 07, 2022

Colette

Há duas noites fui a um velório.

Nunca me tinha acontecido ir ao velório de um jovem rapaz, morto de forma trágica e violenta, quase à porta de casa.

Um acidente terrível, do qual foi a única vítima mortal. Não violou nenhuma regra de trânsito, não se colocou nem pôs ninguém em perigo. Alguém dizia, até, que era um jovem muito cuidadoso na estrada, simplesmente, estava parado num cruzamento, de pisca posto, para virar para o seu bairro...No sítio errado, à hora errada...

Eu, que também sou mãe, fiquei muito transtornada com a visão daquela mãe completamente dilacerada pela dor da perda do seu menino, do seu confidente, do seu grande amor... Um filho criado com tanto carinho, um jovem na flor da idade, com imensos projetos e uma vida inteira para os concretizar. 

Como se fica depois da morte de um filho?

Não sei responder.

Só sei que aquela vida, com todos os seus sonhos, foi ceifada numa fração de segundos e que aquela família, por mais que o tempo passe e atenue o sofrimento, não voltará a ser o que era antes desta fatalidade. 

Sei, também, que as pessoas conduzem de qualquer maneira: completamente distraídas, com  excesso de alcool, sob o efeito de drogas ou de medicação que afeta a condução, a enviar mensagens no telemóvel, a discutir em altos berros com o parceiro que vai ao lado, depressa demais... Enfim, de forma muito inconsciente e inconsequente, ignorando que o veículo que têm nas suas mãos é, também, uma arma perigosíssima, muito eficaz a matar vítimas inocentes.

Neste caso, infelizmente, esta inconsciência foi fatal...

 

 

Outubro 05, 2021

Colette

Há dias fui almoçar com os colegas de trabalho.

Um desses colegas gosta de organizar , de vez em quando, um desses encontros, para podermos desfrutar da companhia uns dos outros, falando de outras coisas que não trabalho. A tentativa é boa, e também eu aprecio esses momentos de convívio, mas às tantas, lá estamos nós a falar de trabalho, o que muito incomoda o promotor do evento...

Nesse almoço em particular, pedi vinho. Tinto, se faz favor. É a minha distração, esta mania de não observar o que se passa à volta que me deixa à mercê dessas situações. Os homens tinham pedido cerveja preta e as mulheres água, sumo e até coca-cola, mas vinho, ninguém!

Bom, o que se segue é que o empregado me trouxe o vinho numa caneca de vidro transparente, pequenina, mas de conteúdo bem visível. Impossível de disfarçar a evidência da prevaricação, do meu (breve) desconforto, mas também da minha satisfação em degustar um néctar tão bom, ao longo da refeição...

No final do almoço, um dos colegas veio ter comigo para me felicitar (?) pela escolha da bebiba. Sim senhor, a única a pedir vinho, disse ele.

O que é que se passa com as pessoas?

 

 

 

 

Setembro 12, 2021

Colette

Estou a acabar o ultimo livro de Paulo Coelho: Hippie.

Já não lia nada deste autor há uns anos, mas confesso que gostei bastante deste livro.

Encontramos um relato de cariz autobiográfico, através do qual Paulo Coelho viaja até aos seus anos de juventude, nomeadamente à década de 70 e nos conta a sua experiência enquanto jovem hippie, que deixa o Brasil e parte à descoberta do mundo e do sentido da vida.

Como em outros livros, Paulo Coelho vai fazendo inúmeras reflexões sobre todas essas experiências, explorando muito a parte da espiritualidade. Questões como a procura da verdade, a fé, o amor, estão bem presentes neste livro que tem, ainda, a vantagem de levar o leitor numa grande viagem pela Europa, descobrindo ou revisitando países e lugares, numa época muito especial, de grandes mudanças políticas, ideológicas e sociais. O leitor embarca no "Magic Bus" e vive na pele as aventuras e desventuras daquele grupo: emociona-se, surpreende-se, revolta-se, questiona-se.

Eu era criança nos anos 70, mas recordei muitas coisas de que já não me lembrava, com este livro de Paulo Coelho.E confesso que também me fez refletir e alterar um pouco a ideia que tinha em relação ao movimento Hippie e à sua filosofia de vida. Recomendo.

Setembro 08, 2021

Colette

A certa altura procurei um psicólogo. Não que precisasse, mas era o conselho que todos me davam.

Vá, procura ajuda especializada. Se calhar precisas de falar, de deitar cá para fora isso tudo. Às tantas não te fazia mal uma medicaçãozita, assim, uns calmantes. Isso é burnout. É stresse.  Não estarás com uma depressão?

Bom, lá fui à psicóloga. Uma doutora super bem arranjada, pose de modelo, roupas e bolsa de marcas caríssimas, cabelo esticado e bem cuidado, unhas de gel, jóias, imensas jóias (aquilo seria  tudo ouro?). Tinha aquela idade em que é difícil arranjar um termo para a nomear, talvez uma jovem mulher seja a melhor designação( ou será uma rapariga adulta?).

 Os franceses têm o mademoiselle que é excelente por dar para todos os casos, desde que a moça em questão seja solteira, mas pelos vistos também já não serve, pois querem desfazer-se da palavra. A gente diz mademoiselle e vem-nos à ideia imagens bonitas como uma Brigitte Bardot ou uma Catherine Deneuve no auge dos seus 20 anos. Qual o mal de mademoiselle?

Então, fui à tal doutora, vamos chamar-lhe “Ana”, que me convidou a sentar e me colocou à frente uns papéis com várias perguntas às quais eu tinha que responder, por escrito. Fiz o que me pediu, o que demorou cerca de 5 minutos, entreguei-lhe as folhas que arrumou numa gaveta,  sem conseguir deixar de espreitar para algumas respostas e, muito calmamente, começou a desenhar numa folha branca de um pequeno bloco que tinha à sua frente, na secretária. ( Neste momento, enquanto a jovem mulher desenha, podia dedicar-me a descrever o consultório, mas, na verdade era uma sala demasiado branca para o meu gosto. Se eu fechasse os olhos durante algum tempo e os voltasse a abrir ali ficaria com a sensação de que já tinha morrido e acordara no paraíso, tal a brancura envolvente. Além do mais ela já parou e está a olhar para mim).

Colette,  vou explicar-lhe este desenho e acho que vai ajudá-la, prometeu a doutora.

À minha frente, na tal folha branca estavam desenhadas três esferas, umas dentro das outras. Logo havia uma mais pequena, ao centro, outra um bocadinho maior, à volta dessa e ainda outra, maior ainda, à volta das outras duas. Olhei para as esferas e lembrei-me logo das bonecas russas, as Matrioskas, mas algo me disse que o significado daqueles traços nada tinha de maternal. Na verdade, estava longe de imaginar que aquele desenho iria mudar a minha vida para sempre, pois encerrava dentro de si, literalmente, o segredo de uma vida sem chatices nem percalços...

Então é assim, Colette- a voz da psicóloga tirou-me de dentro das Matrioskas. Estas esferas representam as três esferas de influência, na nossa vida....

Ela falava e eu acenava com a cabeça,  afirmativamente. Ao mesmo tempo, sentia vários nós no meu cérebro a desfazerem-se e uma agradável sensação de paz  começou a invadir o meu espírito.

Basicamente, a Dra. Ana explicou-me que todos nós temos a mania de querer controlar tudo o que está à nossa volta. Sentimos a necessidade de fazer valer a nossa opinião e a nossa vontade nas várias áreas que constituem a nossa vida pessoal e profissional: trabalho, família, grupo de amigos, vizinhança, bairro, cidade, país, mundo...

Obviamente que tal não é possível e essa constatação, ou melhor, a sua ausência, provoca em nós uma grande incompreensão e uma enorme sensação de impotência, que nos frustra e faz sofrer.  

A primeira esfera, explicou-me, a mais pequena, diz respeito àquilo que  realmente podemos escolher e decidir, pois depende apenas de nós enquanto indivíduos:  o que vestir, o penteado que faremos em breve,  o curso que queremos tirar, o carro que vamos comprar, o nosso parceiro ou parceira de uma noite (ou de uma vida?), deixar de fumar, deitar cedo, comer saudavelmente, ir caminhar ou ficar deitado no sofá, opinar ou ficar calado, etc...

A segunda esfera, um pouco maior, são aquelas situações em que temos alguma influência, mas já limitada e condicionada  pelos outros: dinâmicas de trabalho, destino de férias em família e outras decisões importantes ( e, muitas vezes, fraturantes no seio familiar...), obras no prédio, eleição dos nossos representantes políticos, etc...

A última esfera diz respeito a tudo o resto, e que, de facto, foge ao nosso controlo: eleição dos presidentes dos EUA , da China ou Rússia, por exemplo, a guerra no Afeganistão e o terrorismo, a fome no mundo, a burocracia, a corrupção, etc...

Como é que a descoberta destes círculos te trouxe tranquilidade? Perguntarão alguns. E eu respondo: muito fácil. Ao conhecer as minhas limitações, ao perceber que é humanamente impossível eu influenciar e intervir em tudo o que me rodeia, foco-me no essencial, nas áreas e nas pessoas onde, efetivamente, posso e devo concentrar as minhas forças e energias, nas pessoas que se cruzam no meu caminho e que merecem o meu tempo, o meu esforço, a minha dedicação. Tudo o resto não me deve preocupar tanto assim.

Dirigi-me para o carro com uma sensação de leveza. Afinal, talvez não fosse preciso medicação. Quando cheguei ao pé da minha Musa, vi que tinha uma mensagem no telemóvel: O que é o jantar, mãe?

Respirei fundo, visualizei três círculos e respondi: Hoje vamos jantar fora....

 

 

 

 

Agosto 31, 2021

Colette

Mia Couto é um dos meus escritores favoritos. Li a maior parte dos seus livros e, sempre que o faço, encontro mais motivos para gostar, cada vez mais, da forma como escreve.

O que mais me fascina são as histórias e as personagens que traz para os seus romances /contos e que nos transportam, imediatamente, para África: os seus lugares, as  cores, os sons, os cheiros e as suas gentes. Mia Couto é a voz escrita de todo um povo e da sua vivência, da sua História e histórias, dos seus mitos, ritos e tradições, das suas línguas e linguagens, da sua cultura.

Há dias descobri, por meio de um programa da RTP, que as pessoas procuram o escritor para lhe contar esta ou aquela história que ouviram a um velho contar, ou um determinado acontecimento presenciado que acharam digno de registo. Procuram, inclusivamente, Mia Couto, quando inventam uma nova palavra, adequada e útil a um certo contexto ou apenas curiosa ou engraçada. Sabem que o escritor aprecia estas invenções. Mia, grande escritor e ainda melhor ouvinte, escuta com atenção (e com aquela genuína humildade que já lhe conhecemos) todos os relatos que, muitas vezes, usa depois na sua escrita. Eu acho isso incrível.

Saramago tem uma expressão parecida com esta “ Somos todos escritores, só que uns escrevem e outros não”. O que me diz esta frase é que todos temos histórias de vida para contar. Qualquer vida daria um romance. Mas, na verdade, nem todos temos o que é necessário, aquele dom de transformar as vivências em palavras, as palavras em frases e as frases em textos que alguém queira ler.  No caso de Mia, apetece-me dizer que é preciso muito desse talento, mas que é necessário, sobretudo, ter uma grande alma, um fundo muito bom e amplamente iluminado para realizar uma obra assim: a de colocar no papel não apenas as  palavras, as histórias que ouve e inventa, mas tudo o que elas são e encerram em si, tudo o que elas representam e significam.

Há anos, alguém me dizia que existem palavras para tudo,  para todas as situações, sentimentos, estados, emoções e que o problema, na realidade, éramos nós, que não as sabíamos todas. Por isso, concluia o meu interlocutor, não faz sentido dizermos, perante uma fatalidade, por exemplo, “ Não há palavras”, porque as há. Na altura achei que estaria certo, mas isso foi antes de Mia, era ainda noite.

Nem sempre as palavras que existem são suficientemente capazes de exprimir uma ideia, um conceito, um estado de alma. Por vezes e por melhores que sejam, não chegam, não têm força, substância suficiente. Isso eu aprendi com Mia e com a sua incrível fábrica de fazer palavras, a sua escrita de as inventar.

Por vezes ainda me falham as palavras para falar de certas coisas e de pessoas que já não vejo, nem abraço. Uma delas era a minha mãe. É engraçado haver pessoas que não são muito de palavras, são mais de risos e de olhares. A minha mãe era assim. Tinha um vocabulário muito reduzido, talvez porque a vida dura que teve dispensasse grandes conversas. No entanto, em caso de necessidade, também ela inventava.

Uma dessas palavras era o famoso “desinfeliz”. Cheguei a corrigi-la, mas depois deixei-a repetir as vezes que lhe apeteceu. Não teria adiantado de muito explicar-lhe que já existe o adjetivo infeliz, antónimo de feliz, e que o prefixo in ... (blá, blá, blá)... Quando parei para pensar nesta nova palavra, que ela insistia em usar, percebi o seu significado e a urgência da sua existência. Um rapaz desinfeliz não é só infeliz ( o que já não seria pouco),  ele é ainda mais do que infeliz, duplo prefixo, duplamente infeliz: desinfeliz dá maior intensidade à ideia de infelicidade do rapaz, quando o superlativo não resulta ( já imaginaram uma camponesa a dizer- Ai, coitado do rapaz, anda infelicíssimo).

Bravo. Embrulha, Colette!

Gostaria que a minha mãe soubesse que também eu fiquei desinfeliz com a sua partida.

Felizmente, ela deixou-me as palavras.

 

 

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