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Pezinhos de lã

Pezinhos de lã

Teoria do desapego ou a imensa ternura dos 50

Dei por mim a pensar seriamente no significado da vida.

Acho que acontece a todos, depois dos 50: os filhos terminam os estudos, concorrem ao primeiro emprego, apaixonam-se perdidamente e nós começamos a perceber que o caminho restante é bem mais curto do aquele que nos trouxe até aqui.

Então, pensamos se faz sentido continuar com tanto peso em cima das costas ou se é o momento de começar a deixar para trás o que, na verdade, já pouco importa (importou algum dia?).

Passamos grande parte da vida a valorizar o ter, aliado a uma necessidade, por vezes doentia, de o mostrar : a casa ou o carro novo,  as roupas de marca, as jóias...  Compramos, acumulamos, preenchemos os nossos vazios com o que é material, iludidos com uma falsa ideia de felicidade. É o jovem ego a alimentar-se, de bens, de poder e estatuto, de orgulho e de vaidade...

Por isso, chegados ao outono da vida, é comum fazer-se uma reflexão profunda e querer libertar-se das amarras, largar essa pele, abdicar do que temos e somos em exagero e começar a valorizar outras coisas, realmente importantes: as coisas simples.

É nesse ponto que me encontro: num estranho ponto de desencontro e de desapego,  nessa imensa ternura dos 50...

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Querida mãe

Hoje, recupero um texto que escrevi há uns anos. Foi publicado no jornal da escola onde eu trabalhava, no espaço da "Crónica sem vergonha". Agora, talvez sugerisse a alteração da rubrica para "Crónica com orgulho", pois é orgulho que sinto quando recordo os meus pais, infelizmente já desaparecidos, as pessoas simples, íntegras, autênticas e generosas que eram e assim ficarão, para sempre, no meu coração e na minha memória. 

"A minha mãe morreu a 4 de janeiro de 2006. Não consegui, durante muito tempo, imaginar o que seria o resto da minha vida sem ela. Não se ultrapassa a morte de uma mãe, pois não há nada neste mundo que a substitua. Comemos rebuçados de mentol para compensar a falta do cigarro, trocamos de carro, de casa, de emprego, de cidade, de amigos e até de amores, mas não trocamos a nossa mãe por nada. A nossa mãe sabe sempre o que nos vai na alma. Faz o nosso prato preferido quando a visitamos, acende aquela magnífica fogueira ou o fogão a lenha e nada se iguala ao cheiro que emana dos seus cozinhados, ao calor do lume e dos seus braços. Ela é o alicerce, a casa, a força que empurra e faz andar as nossas vidas e o mundo.

Com tenra idade, a minha mãe deixou a aldeia e partiu para "servir", em Lisboa. Os tempos eram difíceis e cabia aos irmãos mais velhos ajudar a sustentar a família. A minha avó, viúva, com sete bocas para alimentar, não viu outro remédio senão aceitar que os filhos, ainda crianças, fossem trabalhar, nem que fosse por uma tigela de caldo e um abrigo. As raparigas tinham mais sorte e, normalmente, eram requisitadas como criadas, nas grandes cidades, nas grandes casas, dos grandes senhores. Era assim a sociedade de então, já tão estratificada e injusta, onde a infância era roubada e maltratados os meninos, a quem era exigido que fossem adultos ( "o trabalho do menino é pouco e quem não o aproveita é louco", diz a sabedoria popular...)

Só muito tarde decidi arrumar o quarto dela: dei as roupas e o calçado e guardei os óculos de ver, de massa cor de rosa. Tentei arrumar na minha cabeça que a tinha perdido. Como se arruma na nossa cabeça a morte da nossa mãe? Deixamos sempre para mais tarde as decisões difíceis. É uma forma de adiar os problemas, esperando que uma força superior os resolva, sem dor, sem lágrimas, sem perdas, sem arrependimentos. Alguém me diz como se arruma, na nossa cabeça, a morte de uma mãe? Como se aceita que não a voltamos a ver, a ouvir, a beijar? 

Em Lisboa, a minha mãe sofreu muito. Era uma pobre rapariga da aldeia que nada entendia de cozinhados, rendas ou ferros de engomar. A patroa era uma mulher dura, exigente, que adotou, como método para educar os filhos, as criadas e o marido, uma espécie de regime militar. O Toninho e o Manelinho não podiam pisar o risco, pois esta mãe ditadora não perdoava e transformava-se no pior carrasco da história da humanidade. Com as criadas não se atrevia a tanto, mas também as castigava, humilhando-as, fazendo-as repetir vezes sem conta a mesma tarefa, até ficar perfeita. "Isaura, esta camisa está mal passada. O senhor não pode andar na rua com uma camisa neste estado". Mergulhava-a novamente no tanque de lavar a roupa e a Isaura tinha de recomeçar a operação. " Ficava-lhe com uma raiva, nem imaginas!", confessava muitos anos depois. " O que será feito dos meninos? Que pena que eu tinha deles, levavam tanta porrada...", concluía.

(Agora já consigo falar dela. Sem raiva de não a ter ao meu lado, sem revolta por me ter deixado tão depressa, quase de surpresa. Consegui arrumar o quarto e deposito flores na sua campa, mas dói, continua a doer esta ausência imposta, cruel - esta terrível saudade).

A minha mãe era uma mulher muito bem-disposta. Na sua mesa havia sempre lugar para mais um e partilhava, generosamente, o que tinha. Adorava estar rodeada de gente feliz, que escutava atentamente as suas histórias e canções. Mesmo quando a doença a impediu de ter uma vida com qualidade, presenteava os filhos com as "modas" aprendidas na sua mocidade, em Lisboa. Recordo a quadra de uma, em particular, a que ela chamava de "A maldade das mulheres". Não conheço a autoria, mas imagino-a cantada por uma voz e um estilo únicos, ao jeito do Marceneiro. Era, mais ou menos, assim: " As mulheres são interesseiras, falsas e coscuvilheiras, não se engana quem disser. Sempre a falarem da vida, não há língua mais comprida, do que a língua das mulheres". Os risos soltavam-se à sua volta e as cantigas lá continuavam, noite fora, como se o tempo tivesse ali parado, como se nada mais interessasse para além daquele lugar, daquelas gentes simples, da mesa, cúmplice da nossa alegria.

A minha mãe brilhava mais que as estrelas reluzentes das noites de verão... e sabia-o..."

 

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Canção de ninar da mãe · Creative Fabrica

Sei quem és- (Sé Quien Eres)

Segui, na RTP2,  a série espanhola "Sei quem és" (Sé Quien Eres).

Há muito tempo que não via uma série policial/thriller tão intensa e viciante. Vi os 16 episódios com o mesmo entusiasmo e fiquei muito triste quando terminou. A história é intrigante, o desempenho dos atores espetacular, o ritmo da ação estonteante.... Nada, nem ninguém é o que parece e vale tudo para alcançar o que se quer. Não há amor ou amizade que se sobreponha aos próprios interesses de gente egoísta, mesquinha e sem escrúpulos. Um retrato duro ( mas realista?) de uma certa elite que tudo consegue, com dinheiro, poder e conhecimentos. Para quem não assistiu, pode fazê-lo na RTP Play. 

"Criada por Pau Freixas, a série conta no elenco principal com Francesc Garrido, Blanca Portillo, Aida Folch, Carles Francino, Antonio Dechent, Nancho Novo, Eva Santolaria, Mar Sodupe, Martiño Rivas, Alex Monner, entre outros. A trama segue Juan Elías (Garrido), um brilhante advogado e professor universitário, casado com a juíza Alicia Castro (Portillo) e pai de dois filhos. Um dia, aparece a vaguear por uma estrada, ferido e em estado de amnésia total. Horas depois, a polícia encontra o seu carro acidentado e no interior o telemóvel e vestígios de sangue da sua sobrinha e estudante, que não é vista desde então.

Foto/Divulgação: © Mediaset España

O pai da jovem, Ramón Saura (Novo), está convencido que o seu cunhado a assassinou e vai fazer tudo para o provar. Ramón contrata a advogada Eva Durán (Folch), uma ex-aluna de Juan, que está convicta que a amnésia é uma desculpa para esconder o terrível crime. Todas as evidências apontam para a culpa de Juan, mas devido à amnésia, o advogado nem sabe se é inocente ou não. Com a ajuda da mulher tenta recordar o que aconteceu. A busca colocará as duas famílias em confronto, o tio é o principal suspeito."

Duas famílias em confronto. RTP2 estreia a série espanhola “Sei Quem És” – Cinevisão (cinevisao.pt)

 

Hoje, o meu filho faz anos

Costumo dizer que as coisas acontecem na nossa vida no momento certo, assim como as pessoas. Umas vão ficando, de forma intermitente ou para a vida, outras desaparecem, por vezes sem deixar rasto. Há as que nos ensinam a paciência, o perdão e a tolerância, outras a sermos organizados, trabalhadores e resilientes. Há as especiais que nos cuidam, dispostas a ouvir-nos, sempre, e as que nos levam para a loucura e diversão, pois a vida são dois dias ( e se têm razão!). Por vezes, com sorte, há as que nos ensinam o amor e há as que só interessam para percebermos como não queremos ser, jamais.

Tenho seis irmãos, sou tia e tia-avó de muitos meninos que, do meu modo, ajudei a criar, pelo menos nas férias de verão. Essas minhas “férias grandes” eram passadas, maioritariamente, na companhia dos meus sobrinhos, miúdos ainda (eles e eu),  que iam comigo para todo o lado: ao café, às festas da aldeia, ao rio ( que na altura ainda estava limpo), à praia. Por essa circunstância, sempre gostei de crianças e sempre desejei, também eu, ter os meus próprios filhos. Julgo até que foi esse convívio, essa partilha de afeto e esse sentido precoce de responsabilidade que, mais tarde, pesou na escolha da minha profissão, mesmo que não o soubesse, então.

Depois de acabar a minha licenciatura e já a trabalhar, aconteceu o meu filho.

 O meu filho apareceu na minha vida no momento oportuno. Nem tarde, nem cedo. Curiosamente adivinhei-lhe as feições: loirinho, de cabelos aos caracóis e de pele branquinha. Assim seria o nosso bebé, como um anjinho, dizia eu ao seu pai. Nunca acertei em jogos de sorte e de azar, mas aí não falhei. Nasceu a 14 de outubro, de 1999, mais cedo que o previsto, exatamente como o tinha imaginado, mas mais pequenino e com muita vontade de continuar no seu mundo de água, calmo e tranquilo. Nascer acaba por ser a nossa primeira grande perda e o nosso primeiro desafio. Teremos essa consciência no momento em que deixamos a segurança e o conforto da barriga da nossa mãe para entrarmos num mundo desconhecido e profundamento perigoso? Será esse primeiro choro fruto das nossas dores de parto ou já a intuição do que nos espera?

Cada velho é um jovem que pergunta o que aconteceu, li há dias. Nada mais verdade. A vida aconteceu e hoje o meu filho volta a fazer anos, é o seu 24º aniversário.

 “Ainda não escreveste nada sobre mim no teu blogue, mãe”, queixou-se há dias. E com razão. Mas sabes, filho, falar do que nos é mais precioso é mais difícil do que parece, porque as palavras, quando vêm do coração, têm de fazer um percurso maior e, por vezes, perdem-se nas curvas das memórias, dos carrinhos de brincar que tinhas e com os quais andavas sempre atrás de mim, mesmo quando ia à casa de banho, escondem-se no teu riso fácil e na fofura dos teus beijinhos e das tuas primeiras palavras, espreitam nos dentes pequeninos e branquinhos que te caíam e na moeda que a “fada dos dentinhos” se esquecia de te dar, por vezes, pois a mãe estava demasiado cansada para se lembrar de ta colocar na mesinha de cabeceira, à noite. As palavras encontram pontes caídas, de medos de febres altas e de falta de ar que herdaste da tua avó, minha mãe. As palavras também se perdem quando amam muito, mesmo quando, mais tarde, deixei de te dar beijos no portão da escola e comecei a dormir menos, de olho na tua cama ainda vazia ( e já é tão tarde, onde andará?), ou quando fizeste a primeira mala, de partida para Coimbra,  e eu a disfarçar os meus receios com  tuperwares cheios de comida, para as primeiras refeições,  “mas depois vais à cantina e comes a sopa toda, não te esqueças, João, e a fruta” ... é a vida a acontecer, filho.

Perguntaste-me, há dias, o que é que eu faria se tivesses de ir para a guerra. A questão apanhou-me desprevenida e balbuciei que, se isso acontecesse, terias de ser tu a decidir e eu aceitaria a tua escolha, por mais que me custasse , “pelo meu país, não podia recusar...”, concluíste.

 Agora, passado o tempo da resposta politicamente correta, sei que no meu mais profundo eu, tal não seria possível: tento imaginar-te vestido de verde, de capacete negro e com uma arma a tiracolo, a partir para um cenário horrível de dor, morte e destruição e juro que só consigo ver o meu menino, pequenino, a descer inseguro a rampa do colégio, com a mochila do Picachu às costas, a virar-se para mim (ainda à espera) e a acenar-me um até logo, a acenar-me um gosto muito de ti, mãe, és a melhor mãe do mundo...

O que faria eu se tivesses de ir para a guerra, meu filho?

 Provavelmente morria...

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Maria rainha, Maria mulher

Acabei de ler o romance de Isabel Stilwell sobre D.Maria I. 

Quando peguei no pesado livro, pensei que a escrita e a história teriam de ser muito interessantes para eu levar a leitura até ao fim. Não me desiludiu: excluindo as partes relativas à troca de correspondência entre a rainha e a priora da Estrela, assim como a questão do escritor inglês que desejava, a toda a força, ser aceite pela corte portuguesa, ocupando com isto uma série de páginas, a história flui e prende com todo o seu conteúdo, aliado às vastas e cativantes personagens, maioritariamente verídicas, que Stilwell traz para uma história que é a nossa, do país e da Europa dos finais do séc.XIX.

O romance centra o seu olhar na figura de D.Maria I, uma mulher dócil e frágil que tenta equilibrar todas as suas obrigações e compromissos, de filha, de esposa e de mãe, de rainha de Portugal e de cristã fervorosa. D.Maria I, Princesa da Beira, vive num tempo tumultuoso, de mudanças drásticas na Europa e no mundo.

No trono de Portugal, a rainha tenta salvaguardar a memória de seu pai, D.José I, ao mesmo tempo que procura compensar os injustiçados e as suas famílias das más decisões do falecido rei, alimentadas pelo marquês de Pombal. Como se a política interna não bastasse, com todos os assuntos difíceis que tem para resolver, ainda tem de tomar uma posição em assuntos internacionais delicados, como a independência dos Estados Unidos ou a questão das alianças de e com outros países europeus. Neste tabuleiro de política externa, joga pelo seguro e consegue, surpreendentemente, manter sempre a neutralidade do nosso país. 

Maria quer fazer tudo bem, pois é "uma santa", repete-lhe o marido, D.Pedro III, "está destinado", insiste a priora da Estrela (que, supostamente, recebe mensagens de Deus, convencendo disso a rainha ), esta controla as emoções, finge, nada deixa transparecer, mas os seus esforços nunca chegam, a sua fé imensa não consegue aliviar o seu fardo, demasiado pesado, nem pôr fim aos seus receios, à sua tristeza e melancolia.

De França surgem ventos ameaçadores: é o povo a revoltar-se contra uma nobreza ociosa e dispendiosa, a reclamar pão e justiça. São as doenças e a morte a proliferar. É uma monarquia presa por um fio. 

D.Maria I, rainha de Portugal, devota fervorosa, defensora dos pobres e de um reinado de paz, sente-se perdida e, com a morte dolorosa dos que a amparavam, nomeadamente do marido, da criada Rosa e dos filhos, sem o apoio do seu confiável confessor, pressionada por todos os lados e por um segredo impossível de cumprir, acaba por perder o seu débil equilíbrio, desmorona, cedendo à loucura...

Pouco sabia sobre D.Maria I, a rainha louca, e o que tinha lido eram sobretudo datas, tratados, decisões, pouco mais.

Olhamos para a História e para os nomes do nosso país, neste caso para a figura desta rainha, e nada sabemos sobre a pessoa, os seus hábitos, os seus gostos, os seus medos, apenas aprendemos como governou e qual o seu legado.

Mais do que a história de uma rainha, este livro de Isabel Stilwell deu-me a conhecer uma mulher enorme: culta, sensível, meiga, carinhosa, inteligente, justa, compassiva, mas também frágil, assustada, influenciável, supersticiosa, indecisa, sismada, sofrida, enfim... humana.

Aprendi, refleti, sorri, emocionei-me, distanciei-me, identifiquei-me, com esta rainha a quem pediram que fosse tudo, para todos, quando isso não é possível, pois ela era, na verdade, como todas nós, apenas uma mulher.

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A Oeste, tudo de novo

Este ano, contrariamente ao costume, não passei as férias no Algarve. Por razões várias fui, com a minha família, para a zona do Oeste, mais precisamente para Peniche.

Na minha juventude, já tinha passado dois verões por ali, nas Caldas da Rainha, mas desde então, apenas voltei a Óbidos, para mostrar essa linda vila muralhada à minha filha.

Confesso que tinha um pouco de receio de apanhar vento, céu nebulado e a água fria. Sou das que costuma dizer que, tempo sempre bom e água quente é no Algarve, não há que enganar. Porém, fui surpreendida pela positiva e posso dizer que adorei estas férias, pois no tempo que ali fiquei, quase 10 dias, esteve praticamente sempre sol, e a água do mar manteve-se numa agradável temperatura de 19/20 graus.

Além disso, uma das vantagens do Oeste é que fica tudo perto: a 20/30 minutos de carro pode-se visitar muitos outros locais de interesse. Assim, fomos à Foz do Arelho, que já conhecia, mas que adorei revisitar e onde comi o melhor hamburguer da minha vida, no Bar da praia "7 vaga"; demos um pulo a S.Martinho do Porto, cuja baía me deixou de boca aberta (parece a Nice portuguesa...), ao ponto de me imaginar a viver ali, perfeitamente bem, e ainda houve tempo para passar na Nazaré, mostrar a praia "das ondas gigantes", que faz as delícias dos surfistas de todo um mundo, à minha pequena e comer um peixinho fresco que me soube pela vida! 

Sinceramente, nacionalismos à parte, cada vez gosto mais do meu país, pequeno em dimensão, mas enorme nas suas praias e paisagens, na gastronomia, nos monumentos, na sua música, nas suas gentes...

É entrar no carro e não recear seguir à aventura, por caminhos diferentes dos usuais, Norte ou Sul, litoral ou interior, montanha ou mar, há muito para ver e para viver no nosso Portugal ... No meu caso, (re)descobri o Oeste e fiquei maravilhada!


 

O Grande Gatsby, de Francis Scott Fitzgerald, 1925

Este foi o meu primeiro livro de praia, nestas férias de verão.

Não posso dizer que adorei, mas gostei de viajar até à América dos loucos anos 20 e entrar na vida agitada de Jay Gatsby, um militar provinciano, de origens humildes, que conseguiu ascender socialmente, por circunstâncias diversas, tornando-se num homem muito rico e excêntrico.

Gatsby não esqueceu Daisy, uma jovem mulher rica e mimada, com quem tinha mantido uma relação, na sua juventude, mas que não pudera desposar, pela sua condição social, e regressa convicto de que a reconquistará, pois crê, de forma ingénua e obsessiva, que Daisy não o esqueceu.

 No entanto, ela é agora uma mulher casada, com o odioso Tom Buchanan, que tudo fará para manter este casamento, mesmo que o mesmo seja infeliz e de fachada.

Conseguirá Gatsby, herói da guerra apaixonado, oferecer à fútil e fria Daisy Buchanan razões suficientes para que ela volte a acreditar e a querer o seu amor?

 Com a história deste triângulo amoroso e das restantes personagens que gravitam à sua volta, nomeadamente de Nick Carraway, o narrador, percebemos que o “sonho americano” é uma utopia, pois continuam a existir barreiras intransponíveis, assimetrias sociais que sempre houve na sociedade americana, contrastando o materialismo, o luxo e os exageros de uns, com as dificuldades e a pobreza sentidas por tantos outros...

Por outro lado, mesmo nas classes sociais mais privilegiadas, observa-se que as relações humanas são frívolas e superficiais, baseadas em interesses vários e estatuto social. É uma sociedade decadente, deslumbrada pelo dinheiro fácil, onde escasseiam os ideais, os valores e a moral...

 Pela sua atualidade, apesar de ser um clássico da literatura, recomendo a leitura desta obra prima de Fitzgerald.

 

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Tempo é coisa rara

Houve quem dissesse que a pandemia que se abateu nas nossas vidas ia acabar por trazer coisas boas. Por exemplo, que as pessoas iam ficar mais preocupadas umas com as outras, que fortaleceriam os laços, enfim, que seriam mais empáticas.

Sinceramente tive dúvidas quanto a este desígnio generalista proporcionado por tão vil bicho...e a guerra na Ucrânia, entre outros tristes exemplos de desumanidade, deu-me razão.

A título pessoal, e porventura em virtude das muitas perdas, esta experiência permitiu-me fazer algumas reflexões, nomeadamente quanto ao meu trabalho e sobre a forma como me relaciono com quem me rodeia: família, amigos, colegas ou meros conhecidos. Essencialmente, pensei sobre o tempo que lhes dedico, no quotidiano ( ao trabalho e às pessoas) e se ele vale mesmo a pena ou se ainda será pouco...

Quando somos crianças, queremos que o tempo passe, queremos ser grandes e ser algo ou alguém. Com entusiasmo, respondemos às nossas tias e avós " Quando for grande, quero ser médica, cabeleireira ou atriz". E esta amálgama de vontades parece fácil, possível e perfeita nas nossas cabeças entrançadas, só falta o maldito tempo passar e tudo se realizará, qual conto de fadas...

O tempo não falhou e passou, entretanto. Não fui médica, nem cabeleireira, nem atriz, mas cortei as tranças, tive filhos, cães e gatos e agora tenho um jardim e escrevo umas coisas num blogue.

Sei o tempo que vivi, mas desconheço o tempo que me resta. Apenas tenho a certeza de que é precioso, que vai continuar a passar muito depressa e que  tentarei aproveitá-lo da melhor forma, a fazer o que realmente interessa, com quem fica e está juntinho ao meu coração.

Pois tempo, como é sabido, é coisa rara.

 

 

 

 

 

Amor de serviços mínimos

Li, algures, que a atenção que damos e que recebemos dos outros é, nos dias que correm, uma grande dádiva, quase um prémio. Por isso, a expressão “ Um momento da vossa atenção, por favor”, nunca fez tanto sentido, já que conseguir que as pessoas levantem o olhar dos seus telemóveis para nos encararem e olhar nos olhos em silêncio, ouvir-nos efetivamente e prestarem atenção ao que dizemos, sem parecerem zombies ausentes deste mundo e desta realidade, é, cada vez mais, uma tarefa dificílima: árdua e penosa, diria até.

Isto aplica-se a qualquer tipo de relação, mas é dramático quando chega ao casal, seja ele de casamento com aliança no dedo, de namoro recente ou de vida em comum.

Fui sempre a favor dos avanços e das novas tecnologias, mas nunca imaginei que chegássemos ao ponto de mendigar a atenção da nossa cara metade.

Em casa, nos restaurantes, nas esplanadas dos cafés, à espera da consulta, é vê-los focados nos seus ecrãs enquanto o/a parceiro/a tenta, desesperadamente, meter conversa, contar uma piada, ganhar um gesto de afeto, acabando por desistir e remeter-se, também ele/ ela à solidão do seu telemóvel.

Nunca houve tanta facilidade em comunicarmos e, afinal, estamos cada vez mais sós e separados uns dos outros.

Negligenciamos o que verdadeiramente importa, mergulhando em histórias que não são as nossas, em tik-toks tão engraçados como efémeros, em amizades ocas, estupidamente virtuais. É o eu a sobrepor-se ao nós, o individualismo sobre a partilha e a cumplicidade, que vão enfraquecendo a cada dia.

Vivemos numa época de desinvestimento nos relacionamentos, nos olhares, no abraços, na intimidade.

E assusta-me esta forma de amar, como se não fosse importante, como se não fosse merecido, como se não valesse a pena, como se não fosse nada.

Receio e dispenso este estranho amor, de serviços mínimos...

 

Aquele post de Natal

Este ano, a ceia de Natal foi em minha casa.

Aos usuais quatro, associou-se o meu irmão mais velho, que me faz sempre lembrar o meu pai, por ser o mais parecido com o nosso "velhote". Esse irmão, que passou a vida praticamente toda em França, escolheu a aldeia natal para gozar a sua merecida reforma. Estando só, juntou-se a nós nesta noite.

Chegou, qual pai natal, carregado com prendas para os miúdos e com sacos enormes, recheadinhos de coisas boas, caseiras e biológicas: a troncha para a ceia, laranjas e limões, salsa fresquinha, cebolas, marmelada feita pela minha tia e outras iguarias da aldeia...

(Sempre que recebo estas maravilhas, penso na sorte que tive em passar parte da minha infância na aldeia dos meus pais. Aí, recordo o poema do grande Fernando Pessoa, o do sino da aldeia que, em tardes calmas, soa na sua alma distante, trazendo-lhe a saudade de um passado feliz... Poeta citadino, até Pessoa sentia saudade de uma aldeia que só tinha em sonho... Como ignorar o que de mim ainda é aldeia?)

Decidi, então, que faria uma ementa natalícia fiel aos nossos hábitos, mas com um toque de modernidade: como entrada, fiz uma belíssima salada de polvo e a acompanhar a tradicional troncha cozida, bem regada a azeite e vinagre, confecionei um bacalhau com broa e batatas a murro. 

( Já o disse: tenho uma relação estranha com o Natal,  é o meu espírito inquieto e inconformado que, ao invés de se vestir de vermelho e de luzes, viaja até outro tempo, à cozinha da aldeia, onde a minha mãe, colada ao fogão, prepara os bolos de massa tenra, a aletria, as filhós e os meus tios, (seus irmãos), passam para dar dois dedos de conversa e beber um portinho:

Então comadre? Como estamos?

Olha, aqui de roda dos tachos. Prova lá um bolinho de bacalhau. Os da tua Ana são bons, mas olha que estes não ficam atrás!

Pois claro, aprendeste com ela! )

O meu irmão fez uma cara estranha: então não fizeste as batatas e o bacalhau cozido? O meu rosto mais estranho ficou: olha, mano, decidi manter a ementa, mudando um pouco, até porque os miúdos não apreciam lá muito as batatas e o bacalhau assim, só cozidos...Pois, mas não é a mesma coisa, retorquiu ele.

O jantar correu bem. A casa bem decorada, a mesa farta e tudo muito apetitoso...Os miúdos trataram da loiça, o meu irmão regressou a casa e eu sentei-me no sofá procurando (em vão) alguma coisa de interesse na televisão.

A noite de Natal, a mais bela e longa noite do ano, que me trouxe de volta as badaladas do sino da minha aldeia, estava, mais uma vez, a chegar ao fim. Espreitei os meus filhos, reacendi a vela ao menino e servi-me de um porto.

Sei que nada será como dantes (como bem o recordara o meu irmão, também ele saudosista de um passado irrepetível), mas a visão dos meus filhos, os meus tesouros, os meus amores, assim crescidos, lindos e divertidos, fez-me crer, outra vez, na magia do Natal: um Natal feito de muitas saudades, é certo, mas também de amor incondicional, de afeto, de união, de fé, de esperança num futuro onde, a par da história por escrever, haverá sempre um sino "dolente na tarde calma", lembrando e homenageando os que, já não estando, estarão cá, para sempre, juntinhos ao nosso coração...

À nossa!

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