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Pezinhos de lã

Pezinhos de lã

27.01.22

Ideologia de género e outras ”mariquices”


Colette

 

Gostava muito que certos políticos fizessem como o gato do outro senhor e se calassem.

Vir para os meios de comunicaçao social opinar sobre ideologia de género, com um discurso embuído de um moralismo perfeitamente inócuo, nada acrescenta de positivo à vida das pessoas que se deparam, diariamente, com grandes dilemas quanto a esta questão.

Que o digam os pais do jovem que ainda ontem se atirou de uma ponte, na cidade onde eu vivo. Tinha 15 anos. Por mais que a família e os seus amigos o amassem, não suportou continuar a viver numa sociedade intolerante, cínica e hipócrita que, amiúde, lhe mostrava que ele não tinha lugar neste mundo, porque neste mundo, só cabe quem é Homem ou Mulher, o resto são aberrações...

Aberração é quem insiste em mergulhar a cabeça na areia. É quem se recusa a ver que cada um é diferente do outro, tendo, no entanto, igual valor e direito a ser feliz, seja qual for a sua condição, tendência ou escolha.

Por isso, pela saúde mental de tantos adolescentes e jovens, que vivem em grande sofrimento com este tipo de comentários e atitudes, é preciso mudar a perspetiva e o discurso, antes que ele faça mais vítimas.

21.01.22

Dezembro, ainda


Colette

Dezembro, ainda

Adoro dias de Sol e de frio. Adoro dias como o de hoje em que o céu, azul celeste, convida a sair da toca. Sol de inverno, mal aquece o rosto gelado, que fecha os olhos com tanta luz… Agasalho quente, mãos na algibeira. Frio polar, dizem na televisão. E eu penso logo em ursos brancos, em glaciares e toneladas de neve. Qual frio polar? Frio apenas, frio de dezembro….

Dezembro é para mim o mês das lembranças. Nada a fazer. No canto da sala piscam as luzes do pinheiro, ao lado dorme o Menino numa cabana, duplamente improvisada, pela História e pela minha falta de jeito para os trabalhos manuais. Pendurei, até, uma gambiarra na cortina, para dar um ar mais natalício ao espaço. Não adianta: decididamente o meu estado de espírito não acompanha o calendário.

Diz o calendário que é altura de dar e receber. E hoje recebi dois separadores para livros, desenhados e pintados à mão. Originais e muito bonitos. Obrigada. São duas árvores típicas desta zona, explicaram-me. Muito giras, adoro as cores. Que pena eu ser tão pouco prendada para estas coisas. Mas gosto de árvores e tenho uma coisa com os plátanos, desde a infância. Mas os plátanos não são daqui, apesar de haver muitos em Alijó. Como raio é que vieram parar os Plátanos a Alijó?

Quando eu era miúda, o meu pai costumava ir jogar às cartas todos os domingos. Depois de conseguir deixar o tabaco, a sueca passou a ser o seu único vício. Como um ritual, após o almoço, ia buscar o capacete e descia ao encontro da sua pequena mota, que punha a trabalhar um pouco, para aquecer. Depois, olhava para a varanda, onde eu o observava ansiosa, e sorria. Queres vir, que eu deixo-te na tua madrinha? Eu dava um salto, e, em poucos minutos, estava sentada atrás dele, com um capacete em forma de penico enfiada na cabeça. Castanho, com umas riscas de fita-cola amarela atrás, a fazer de refletor. Somos uma família de improvisadores…

             E os plátanos, afinal?

Nem consigo explicar as sensações que aquele trajeto me proporcionava. Os meus braços eram demasiado pequenos para conseguir abarcar o corpo do meu pai, homem alto e possante, valente na postura e no caráter (Valentim, nome adequado.) Mas eu entrelaçava as mãos, por cima da sua barriga, encostava a cara no meio das suas costas e fechava os olhos, rendidos ao poder do vento.... Chegados à avenida dos plátanos, eu não baixava as armas, mesmo piscando os olhos a uma velocidade dolorosa, com lágrimas a escorrer pela face, eu resistia: e de repente lá estavam os plátanos, árvores brancas, mágicas, gigantes, estendidas pela avenida, dos dois lados da estrada, imponentes e entrelaçadas. Um túnel de ramos que me transportava para outro mundo.  Os plátanos eram fadas, esbeltas e sedutoras?

Quando passávamos a avenida, os meus olhos podiam finalmente encontrar o descanso. Abraçava-me mais ao meu pai e imaginava-o rei de um reino encantado, onde houvesse muitos plátanos, flores, duendes e fadas boas. Não havia, na minha lista de conhecimentos, nenhum homem superior ao meu pai, porque ele era o homem mais bonito e mais forte do mundo ( apesar daquele capacete ridículo que trazia na cabeça). Ele estaria sempre presente e seria o meu protetor e defensor, em todos os momentos…

Dezembro é para mim o mês das lembranças e tenho uma coisa estranha com plátanos…

16.01.22

Não percebo


Colette

Já não chegam os dedos das duas mãos para contar as pessoas, algumas muito chegadas, que o cancro me levou.

Só mulheres, todas com menos de 50 anos, conto cinco.

Uma delas era a minha melhor amiga.

Nunca pensei que, chegados a este tempo, em que tantos avanços se observam em termos de novas tecnologias, invenções e robótica, ter um cancro fosse uma sentença de morte. É assustador e é muito triste.

É também incompreensível esta situação, em certa medida: inventou-se, em tão pouco tempo, uma vacina contra a Covid e não se vêem avanços assim para melhorar os tratamentos contra o cancro, tão invasivos, dolorosos e destruidores, nem tão pouco, a sua cura?

Não percebo.

 

 

07.01.22

A morte saiu à rua num fim de dia assim


Colette

Há duas noites fui a um velório.

Nunca me tinha acontecido ir ao velório de um jovem rapaz, morto de forma trágica e violenta, quase à porta de casa.

Um acidente terrível, do qual foi a única vítima mortal. Não violou nenhuma regra de trânsito, não se colocou nem pôs ninguém em perigo. Alguém dizia, até, que era um jovem muito cuidadoso na estrada, simplesmente, estava parado num cruzamento, de pisca posto, para virar para o seu bairro...No sítio errado, à hora errada...

Eu, que também sou mãe, fiquei muito transtornada com a visão daquela mãe completamente dilacerada pela dor da perda do seu menino, do seu confidente, do seu grande amor... Um filho criado com tanto carinho, um jovem na flor da idade, com imensos projetos e uma vida inteira para os concretizar. 

Como se fica depois da morte de um filho?

Não sei responder.

Só sei que aquela vida, com todos os seus sonhos, foi ceifada numa fração de segundos e que aquela família, por mais que o tempo passe e atenue o sofrimento, não voltará a ser o que era antes desta fatalidade. 

Sei, também, que as pessoas conduzem de qualquer maneira: completamente distraídas, com  excesso de alcool, sob o efeito de drogas ou de medicação que afeta a condução, a enviar mensagens no telemóvel, a discutir em altos berros com o parceiro que vai ao lado, depressa demais... Enfim, de forma muito inconsciente e inconsequente, ignorando que o veículo que têm nas suas mãos é, também, uma arma perigosíssima, muito eficaz a matar vítimas inocentes.

Neste caso, infelizmente, esta inconsciência foi fatal...