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Pezinhos de lã

Pezinhos de lã

17.10.22

Era uma casa mal arranjada, sem tecto, sem nada


Colette

Alguém dizia, há dias, numa conversa a decorrer ao meu lado, que o que dava era ser desgraçado e viver num bairro social.

-Havias de ver : os apartamentos têm chão flutuante, janelas basculantes e agora a Câmara colocou novos esquentadores com gás canalizado. Qual bairro social? Prédios bem isolados, com capoto, jardim. Sim senhor, vivem melhor que tu ou eu...

Ora, como o assunto não era comigo, não me meti na conversa, mas fiquei a remoer para dentro as palavras que gostaria de ter dito.

Por exemplo, que ser desgraçado nunca é bom e que viver honestamente do seu trabalho conseguindo ter e proporcionar à sua família uma vida confortável é uma sensação muito boa, que muita gente gostaria de sentir, mas não consegue. Gostava de lhe ter dito que quem melhorou esse bairro social, independentemente do seu partido político, é alguém que está muito à frente , alguém que percebeu que todas as pessoas devem ser tratadas e viver com dignidade, mesmo que num bairro social.

Filha de emigrantes, também eu vivi uma parte da minha infância num bairro social, em França, nos anos 70. Curioso é que, já nessa altura, o meu prédio tinha todo o conforto, inclusivamente aquecimento central e uma varanda ampla. Foi esse aconchego que manteve os meus pais e tantos outros casais estrangeiros com as suas famílias em França, de outra forma, teriam regressado a Portugal. Mas a França precisava de gente, de crianças para encher as suas escolas, de mulheres para as suas fábricas e de homens, de força braçal, para construir e fazer o país crescer.

A França acolheu, integrou, eles ficaram. E quando, por fim, os meus pais voltaram para Portugal, lá ficaram os filhos mais velhos e, mais tarde, os netos, num país que também é deles e para a riqueza do qual também eles contribuíram, com o suor do seu trabalho, devolvendo, na mesma moeda, o bem recebido.

 

 

 

 

 

08.10.22

O inferno de Stromae


Colette

Falei, há dias, desta música, com a minha filha.

Dizia-lhe, que com um vídeo extremamente minimalista, Stromae conseguia abordar de uma forma muito profunda, a temática da doença mental, flagelo dos nossos dias, que atinge pessoas de todas as idades e segmentos sociais.   

Entregue à sua solidão, o artista ( doente mental) luta, frenético e obcecado, contra os seus demónios, num cenário imenso, demasiado vazio, demasiado cinzento e frio.

 O seu olhar confuso, triste e perdido, mas de um verde profundo, penetra na nossa alma, onde fica gravado por muito tempo. E os gritos, que ecoam na cabeça do artista, ficam-nos no ouvido, persistindo, como chaga, na memória...

Com esta música e este vídeo, Stromae, que assumiu ter vivido, também ele, o problema da doença mental, mergulha-nos numa narrativa carregada de simbolismo, penosa, pesada, profunda como a sua ansiedade e depressão ... obrigando-nos a olhar de frente, olhos nos olhos, para o desespero daqueles que vivenciam a doença mental.

 Stromae tem usado a sua música para falar de problemáticas atuais e significativas. Por isso o admiro e sigo o seu trabalho.

Este “Enfer”, por ser de tantos e tão autêntico, merece ser visto...e refletido.