Agosto fora, venha setembro...
Este mês de agosto foi completamente atípico.
Para além dos incêncios intermináveis que demasiadas vezes destruiram ou ameaçaram propriedades e vidas, tornando-se um péssimo hábito nos nossos dias de céu cinzento e ar asfixiante, fiquei doente em plenas férias, não só no espírito entristecido pela negrura do meu Alvão, mas também no corpo, a teimar contra uma infeção respiratória. Quase tudo me soube mal, compensando as difíceis idas à praia e ao mar pelos gelados que não comi. Este verão foi de tosse e fluimucil, de febre e Dafalgan, foi de antibiótico (até ao fim, recomendou o doutor). Este verão não me soube a férias e, na verdade, soube-me a muito pouco...
Quando melhorei dos sintomas "gripais", outro golpe, agora na alma: o marido da minha prima falecia de doença oncológica.
O Fernando Salgado, Mota para os amigos, era um pândego: onde ele estivesse, não havia tristeza. Tinha sempre uma anedota ou uma história engraçada para contar. Animava os almoços de família, abria as portas da sua casa e recebia todos com o melhor que tinha. O Salgado era amigo dos seus amigos e da família, gostava de fazer palavras cruzadas e sopa de letras e apreciava programas sobre história, geografia e vida selvagem. O Salgado era boa pessoa, tinha a gargalhada mais autêntica que conheço e morreu demasiado cedo.
No fim do funeral, fomos novamente a casa do Salgado. Substituímos as lágrimas por conversas, por abraços e veio o vinho e a comida. Ficamos até tarde a recordar o nosso amigo e as suas piadas, voltámos a rir com elas e eu imaginei-o ali, feliz por estarmos juntos e unidos, em sua memória.
A morte do meu primo fez-me refletir sobre a importância de pedir perdão e perdoar, sobre ter a coragem de ir ao passado procurar explicações e respostas para os adultos que somos, sobre ultrapassar os traumas e deixar para trás os fantasmas que carregamos.
Este mês de agosto fez-me pensar sobre a importância de criar laços, de desenvolver afetos, de partilhar histórias de vida, de ser empático e apoiar-se, sobre ser-se infinitamente só e ainda assim não se estar sozinho...
Termina agosto, finalmente, venha setembro!
