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Pezinhos de lã

Pezinhos de lã

Setembro 08, 2021

Colette

A certa altura procurei um psicólogo. Não que precisasse, mas era o conselho que todos me davam.

Vá, procura ajuda especializada. Se calhar precisas de falar, de deitar cá para fora isso tudo. Às tantas não te fazia mal uma medicaçãozita, assim, uns calmantes. Isso é burnout. É stresse.  Não estarás com uma depressão?

Bom, lá fui à psicóloga. Uma doutora super bem arranjada, pose de modelo, roupas e bolsa de marcas caríssimas, cabelo esticado e bem cuidado, unhas de gel, jóias, imensas jóias (aquilo seria  tudo ouro?). Tinha aquela idade em que é difícil arranjar um termo para a nomear, talvez uma jovem mulher seja a melhor designação( ou será uma rapariga adulta?).

 Os franceses têm o mademoiselle que é excelente por dar para todos os casos, desde que a moça em questão seja solteira, mas pelos vistos também já não serve, pois querem desfazer-se da palavra. A gente diz mademoiselle e vem-nos à ideia imagens bonitas como uma Brigitte Bardot ou uma Catherine Deneuve no auge dos seus 20 anos. Qual o mal de mademoiselle?

Então, fui à tal doutora, vamos chamar-lhe “Ana”, que me convidou a sentar e me colocou à frente uns papéis com várias perguntas às quais eu tinha que responder, por escrito. Fiz o que me pediu, o que demorou cerca de 5 minutos, entreguei-lhe as folhas que arrumou numa gaveta,  sem conseguir deixar de espreitar para algumas respostas e, muito calmamente, começou a desenhar numa folha branca de um pequeno bloco que tinha à sua frente, na secretária. ( Neste momento, enquanto a jovem mulher desenha, podia dedicar-me a descrever o consultório, mas, na verdade era uma sala demasiado branca para o meu gosto. Se eu fechasse os olhos durante algum tempo e os voltasse a abrir ali ficaria com a sensação de que já tinha morrido e acordara no paraíso, tal a brancura envolvente. Além do mais ela já parou e está a olhar para mim).

Colette,  vou explicar-lhe este desenho e acho que vai ajudá-la, prometeu a doutora.

À minha frente, na tal folha branca estavam desenhadas três esferas, umas dentro das outras. Logo havia uma mais pequena, ao centro, outra um bocadinho maior, à volta dessa e ainda outra, maior ainda, à volta das outras duas. Olhei para as esferas e lembrei-me logo das bonecas russas, as Matrioskas, mas algo me disse que o significado daqueles traços nada tinha de maternal. Na verdade, estava longe de imaginar que aquele desenho iria mudar a minha vida para sempre, pois encerrava dentro de si, literalmente, o segredo de uma vida sem chatices nem percalços...

Então é assim, Colette- a voz da psicóloga tirou-me de dentro das Matrioskas. Estas esferas representam as três esferas de influência, na nossa vida....

Ela falava e eu acenava com a cabeça,  afirmativamente. Ao mesmo tempo, sentia vários nós no meu cérebro a desfazerem-se e uma agradável sensação de paz  começou a invadir o meu espírito.

Basicamente, a Dra. Ana explicou-me que todos nós temos a mania de querer controlar tudo o que está à nossa volta. Sentimos a necessidade de fazer valer a nossa opinião e a nossa vontade nas várias áreas que constituem a nossa vida pessoal e profissional: trabalho, família, grupo de amigos, vizinhança, bairro, cidade, país, mundo...

Obviamente que tal não é possível e essa constatação, ou melhor, a sua ausência, provoca em nós uma grande incompreensão e uma enorme sensação de impotência, que nos frustra e faz sofrer.  

A primeira esfera, explicou-me, a mais pequena, diz respeito àquilo que  realmente podemos escolher e decidir, pois depende apenas de nós enquanto indivíduos:  o que vestir, o penteado que faremos em breve,  o curso que queremos tirar, o carro que vamos comprar, o nosso parceiro ou parceira de uma noite (ou de uma vida?), deixar de fumar, deitar cedo, comer saudavelmente, ir caminhar ou ficar deitado no sofá, opinar ou ficar calado, etc...

A segunda esfera, um pouco maior, são aquelas situações em que temos alguma influência, mas já limitada e condicionada  pelos outros: dinâmicas de trabalho, destino de férias em família e outras decisões importantes ( e, muitas vezes, fraturantes no seio familiar...), obras no prédio, eleição dos nossos representantes políticos, etc...

A última esfera diz respeito a tudo o resto, e que, de facto, foge ao nosso controlo: eleição dos presidentes dos EUA , da China ou Rússia, por exemplo, a guerra no Afeganistão e o terrorismo, a fome no mundo, a burocracia, a corrupção, etc...

Como é que a descoberta destes círculos te trouxe tranquilidade? Perguntarão alguns. E eu respondo: muito fácil. Ao conhecer as minhas limitações, ao perceber que é humanamente impossível eu influenciar e intervir em tudo o que me rodeia, foco-me no essencial, nas áreas e nas pessoas onde, efetivamente, posso e devo concentrar as minhas forças e energias, nas pessoas que se cruzam no meu caminho e que merecem o meu tempo, o meu esforço, a minha dedicação. Tudo o resto não me deve preocupar tanto assim.

Dirigi-me para o carro com uma sensação de leveza. Afinal, talvez não fosse preciso medicação. Quando cheguei ao pé da minha Musa, vi que tinha uma mensagem no telemóvel: O que é o jantar, mãe?

Respirei fundo, visualizei três círculos e respondi: Hoje vamos jantar fora....

 

 

 

 

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